Barcelos, Menino Deus – Vitória de Jesus


Vitória (ou Victória) de Jesus viveu em Barcelos na primeira metade do século XVIII. Foi uma mulher negra escravizada, cujos donos, Bento Ferreira Gomes e Francisca Ferreira Figueira tinham uma mercearia na Rua Direita, onde ela trabalhava. Vitória de Jesus foi a fundadora da Igreja e do Recolhimento do Menino Deus.

A primeira informação sobre a sua pessoa remonta ao ano de 1708, num registo de uma irmandade de Barcelos, para a qual Vitória pagava a cota anual, apesar de estar registada como «escrava de Bento Ferreira Gomes». Faleceu, de repente, a 12 de setembro de 1735. O seu registo de óbito atesta que estava em processo de alforria.

Desconhece-se, por enquanto, tanto a sua data de nascimento como a sua origem. Ela pode ter nascido em Portugal ou pode ter sido traficada de África ou, também, do Brasil. A sua vida conhecida está estritamente vinculada aos acontecimentos ligados à sua fervente devoção ao Menino Deus. Por causa desta fé, Vitória de Jesus soube criar uma vasta rede de apoio para concretizar a sua vontade de construir uma igreja para o Menino Deus. Graças à sua capacidade de liderança, alcançada pelo reconhecimento público da sua fé por parte da população, das autoridades eclesiásticas e dos principais grupos sociais, Vitória ampliou o seu projeto, querendo anexar à igreja um recolhimento feminino. A trajetória e história de vida de Vitória de Jesus destaca-se, no panorama português da época moderna, pela sua capacidade de levar a cabo um projeto arquitetónico, artístico e religioso de grande envergadura e pela capacidade de enfrentar e ultrapassar as barreiras impostas pela sociedade escravocrata, tendo em conta a sua condição de mulher negra escravizada. Ela própria afirmou, no seu testamento, que não sabia nem ler nem escrever, o que torna ainda mais evidente a sua capacidade de adquirir autoridade e reconhecimento ao longo da sua vida. Sem dúvida, possuía uma personalidade carismática. De grande radicalidade foi a sua afirmação pública, durante um processo surgido em 1726, de que «em matéria espiritual» o seu dono não tinha poder sobre ela.

Barcelos, Menino Deus – Igreja e Recolhimento


A igreja e o recolhimento do Menino Deus foram fundados na primeira metade do século XVIII por Vitória de Jesus, uma mulher negra escravizada. Ela guardava uma pequena escultura do Menino Deus que, rapidamente, alcançou fama milagrosa. Por volta de 1720, Vitória começou a planear construir uma igreja e um recolhimento dedicados exclusivamente à devoção ao Menino Deus. Procurou as autorizações eclesiásticas necessárias, bem como os bens que garantissem a construção e o mantimento do culto. Foi atentamente escrutinada pelas autoridades eclesiásticas de Braga, que governavam a cidade de Barcelos. Encontrou pessoalmente o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles durante as Visitações na vila nos primeiros anos Vinte. Vitória alcançou o seu intento de construir a igreja em 1725, recebendo a autorização eclesiástica para a construção. Neste mesmo ano surgiu um contraste jurídico com a Ordem Terceira de São Francisco, em cuja capela na Colegiada de Barcelos, a escultura do Menino Deus tinha sido colocada desde 1718-1719.

Resolvido a seu favor o contraste, perante a justiça eclesiástica da Mitra de Braga, em 1726, foi assinado o primeiro contrato para a construção da igreja na zona Norte do Campo da Feira de Barcelos, o principal mercado semanal da região. O lugar escolhido ficava perto da cerca do convento franciscano de Santo António e próximo da igreja e convento do Terço, pertencente às monjas beneditinas. Por volta de 1728, Vitória de Jesus resolveu começar a construir, também, o recolhimento para “donzelas órfãs” que dedicassem a vida à devoção do Menino Deus. O recolhimento era uma estrutura de retiro feminino ligada à vida religiosa para mulheres que não tinham, por serem leigas, ou não podiam aceder à consagração religiosa. Vitória de Jesus em pessoa tencionava dirigir o recolhimento, para o qual redigiu os primeiros estatutos com o consentimento do arcebispo de Braga e que, infelizmente se perderam. Assim, 1728, modificou o local de implantação do edifício, comprando uma propriedade na zona Norte da vila de Barcelos, onde o edifício se encontra atualmente. Apesar de dirigir todos os negócios relativos à devoção e à construção, era suportada pelos membros do Menino Deus que estipulavam os contratos e as compras necessárias, enquanto ela, por ser escravizada, não tinha condição jurídica para o fazer. Em 1728, foram assinados três contratos, respetivamente com os mestres pedreiros, carpinteiros e serralheiros, encarregados de construir a igreja e o recolhimento.

A igreja foi acabada e consagrada em setembro de 1733, enquanto o recolhimento se encontrava só parcialmente realizado. Duas semanas depois, a escultura do Menino Deus foi transladada da capela da Ordem Terceira dos Franciscanos na Colegiada de Barcelos para a nova igreja. Vitória de Jesus passou a morar numa pequena sala atrás da capela-mor.
Depois da inesperada morte de Vitória de Jesus, em setembro de 1735, as obras abrandaram e foram concluídas somente em 1740, aquando da nomeação do novo arcebispo de Braga, D. José de Bragança. O prelado reescreveu os estatutos e entraram no recolhimento as primeiras mulheres da comunidade pensada, inicialmente, por Vitória de Jesus.

Arquitetonicamente, o edifício segue a tipologia dos conventos e recolhimentos femininos difundidos na região de Braga no século XVIII. A igreja, de nave única, apresenta o portal de acesso público ao centro da parede longitudinal. Os dois coros, alto e baixo, estão posicionados em frente à capela-mor, garantindo a separação espacial entre as “beatas” e a população civil durante as celebrações. A capela-mor corresponde à forma canónica desta tipologia arquitetónica: ampla e profunda, deixa espaços limitados para os altares laterais do arco cruzeiro. Um corredor que corre ao longo da capela-mor, do lado da estrada, conduz à sacristia e a um pequeno ambiente, localizados atrás do altar-mor. Do lado da estrada, o corpo da igreja longitudinal determina a fachada principal do edifício, nobilitado pelo portal central. Lateralmente, a portaria dá acesso ao edifício religioso, transformado hoje em instituição social. Do lado interior da igreja, o antigo recolhimento organizava-se ao redor do claustro central de planta quadrada, rodeado pelo pórtico no piso térreo e pela galeria no segundo andar.

A estrutura atual, embora com algumas alterações nos interiores, mantém o desenho original da planta.


Barcelos, Menino Deus – Escultura e Talha


A história e a trajetória de vida de Vitória de Jesus estão estritamente vinculadas à sua devoção ao Menino Deus e à pequena escultura que, por essa razão, comprou ou mandou fazer, com a aprovação da sua dona Francisca Ferreira Figueira, por volta de 1718. Desconhece-se, por enquanto, o autor da escultura. Esta que, atualmente, está colocada no altar do lado do Evangelho da igreja do Menino Deus, inicialmente acompanhava Vitória na sua vida quotidiana, na loja de mercearia dos seus donos, localizada na rua principal do centro da vila. Os milagres que o assim-chamado “Menino da Vitória” começou a realizar difundiram rapidamente a fama de escultura milagrosa, quer em Barcelos, quer nos arredores da vila. Pela afluência das pessoas à loja, o prior da Colegiada pediu que a pequena escultura fosse colocada num lugar sagrado. Vitória e os seus donos escolheram a capela da Ordem Terceira de São Francisco localizada na mesma igreja. A fama dos milagres do Menino Deus aumentou e, querendo construir uma igreja exclusivamente dedicada à sua devoção, Vitória de Jesus começou a receber e a gerir as doações e, também, a procurar os contratos necessários para assegurar o financiamento do seu projeto arquitetónico-devocional. A partir de 1723, o seu dono, Bento Ferreira Gomes, foi indicado pelo Arcebispado de Braga como tesoureiro da gestão das ofertas e bens que os milagres propiciados pela pequena escultura arrecadavam.

Em 1720, um documento atesta o valor pago pela peanha para a pequena escultura que, até 1733, esteve exposta na capela da Ordem Terceira Franciscana. Após a conclusão da edificação da igreja, em 1733, foi transportada numa sumptuosa procissão e colocada no altar-mor da nova igreja. Em 1728, o mestre carpinteiro Miguel Coelho foi contratado para realizar as obras de carpintaria de todo o edifício, com atenção particular à capela-mor.

Depois da morte de Vitória de Jesus, o arcebispo D. José de Bragança modificou os estatutos do recolhimento, fortalecendo a devoção ao Santíssimo Sacramento. Em 1755, foi redigido o contrato de carpintaria para realizar o retábulo e as sanefas da igreja com o mestre entalhador José Álvares de Araújo. Não se conhece a forma do altar-mor anteriormente realizado pelo carpinteiro Miguel Coelho, reconhecido mestre entalhador de retábulos. Em 1755, foram realizados os altares, ainda visíveis, onde a tecla do Menino Deus está posicionada no altar lateral. A planta e o desenho do retábulo-mor seguem a forma tradicional, com camarote e trono, privilegiando a exposição do Santíssimo Sacramento. A talha do arco cruzeiro demonstra, também, esta mudança de prioridades em relação à devoção original. De facto, no centro do arco triunfal está entalhado o Santíssimo Coração de Jesus, uma devoção fortemente promovida pela monarquia portuguesa ao longo do século XVIII, até à sua instituição pontifícia durante o reinado de D. Maria I.

A escultura do Menino Deus adquiriu nova centralidade em anos recentes, quando, em 2012, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco assumiu diretamente a direção da Instituição.



Barcelos, Menino Deus – Festas


Nos anos Vinte do século XVIII, enquanto Vitória de Jesus intentava realizar o seu projeto de construir a igreja e o recolhimento do Menino Deus, mandou celebrar anualmente o dia da festa do Menino Deus. A confraria que a apoiava, constituída por distintos moradores da vila de Barcelos, contribuía na organização e no financiamento da festa que contava, também, com músicas e carros. Sem dúvida, a festa maior foi realizada em setembro 1733, no dia da transladação da escultura do Menino Deus da Colegiada, no centro da vila de Barcelos, até à nova igreja. A procissão durou um dia inteiro, apresentando as características das principais celebrações religiosas, como a do Corpus Christi. Carros figurativos e grupos musicais exibiam-se em músicas e danças propiciando, além da participação religiosa, momentos de lazer à população.

Apesar do rei D. João V ter mudado radicalmente, em 1719, a procissão do Corpus Christi de Lisboa ocidental, abolindo todas as manifestações sacro-profanas herdadas desde a idade média, em contextos como o de Barcelos continuavam, provavelmente, a conviver formas misturadas músico-teatrais. Alguns documentos de pagamentos referem-se à decoração dos carros para a festa do Menino Deus. Outros, atestam a compensação financeira recebida pelos músicos, demonstrando o envolvimento de artistas ativos no contexto social de Barcelos.

Depois do falecimento de Vitória de Jesus e da entrada no recolhimento da primeira comunidade feminina, a diretora pediu, em 1742, permissão eclesiástica para introduzir, no dia da festa, o canto em latim executado pelas religiosas, evitando, assim, a abertura do espaço a pessoas de fora. O incremento da devoção ao Santíssimo Sacramento, cujo direito de o expor foi concedido pelo arcebispo, também em 1742, confirma a organização mais disciplinada imposta pelo arcebispo D. José de Bragança. A reconstituição das festas do Menino Deus realizadas por vontade de Vitória de Jesus no curso da sua vida, apresentavam certamente características mais fluidas, próximas da tradição dos vilancicos, muitos dos quais dedicados ao Menino Jesus.



Barcelos, Menino Deus – Ciclo de Azulejos


Uma série de vinte azulejos figurativos decora as paredes da galeria do segundo piso do claustro do Menino Deus. Realizados em 1949, o ciclo foi encomendado pela congregação das Franciscanas Missionárias de Maria que foi encarregada de tomar conta da instituição em 1929, quando ainda se encontrava em vida a última beata do recolhimento que, em 1740, tinha recebido as primeiras devotas.

Este ciclo de azulejos apresenta-se como hagiografia visual da vida de Vitória de Jesus, onde episódios demonstrados pelas fontes documentais se sucedem a momentos narrativos transmitidos pela história oral do recolhimento. Mitos, lendas e factos reais entrelaçam-se nos depoimentos das beatas, recolhidos por cronistas locais no século XIX, que passaram a integrar a história de Vitória de Jesus como um todo. Apesar da necessidade de desintrincar os factos demonstráveis dos contos narrativos, a reconstrução tardia da hagiografia da fundadora revela a força da memória e da oralidade. As Franciscanas Missionárias de Maria, nos últimos painéis do ciclo quiseram realçar a própria história dentro do edifício. Pelas imagens reconhece-se a centralidade da devoção ao Santíssimo Sacramento, mantendo a dedicada ao Menino Deus como memória fundadora.